quarta-feira, 10 de agosto de 2011

A tradição da Deusa

Durante os últimos três milênios, as principais religiões do mundo cultuaram o Princípio Divino Masculino. Apesar das diferenças entre os conceitos, dogmas e práticas do judaísmo, islamismo e cristianismo, a Divindade Suprema é personificada por arquétipos masculinos, os mitos e a estrutura sendo enfaticamente patriarcais. Mesmo que existam figuras femininas honradas e celebradas, elas não são consideradas forças primordiais e criadoras, seus papéis e atribuições sendo secundários.
Apesar de, no momento, essas religiões prevalecerem no cenário mundial, a origem delas é relativamente recente. Há provas irrefutáveis de um antiquíssimo culto a uma Divindade Criadora chamada genericamente de “A Grande Mãe”, como comprovam milhares de estatuetas de figuras femininas datadas dos períodos paleolítico e neolítico (50.000 a 30.000 anos atrás).
Antes consideradas meras “vênus pré-históricas”, esses objetos de culto em pedra, argila, osso ou mármore são vistos atualmente como representações da Deusa Mãe, conforme comprovam os estudos, livros e pesquisas de cientistas mulheres (antropólogas, arqueólogas, sociólogas, historiadoras, escritoras).
A Grande Mãe representa a totalidade da criação e a dualidade vida/morte, pois sua essência é imanente e permanente em todos os seres e em todo o Universo. Seus múltiplos aspectos e manifestações representam e reproduzem o ciclo de nascimento, crescimento, florescimento, decadência, morte e renascimento da eterna dança espiral das vidas.
A Deusa Mãe foi a suprema divindade do planeta durante pelo menos trinta milênios, reverenciada por seu poder de gerar, criar, nutrir, proteger e sustentar todos os seres. Conhecida sob inúmeros nomes e representações de acordo com a cultura e a época, a Deusa era a própria Mãe Terra, a energia da vida e morte do planeta, venerada no ciclo das estações, nos fenômenos da Natureza, na riqueza e na beleza da terra, do céu, das estrelas, das montanhas, das águas, das plantas e dos animais.
Com o advento das idades de bronze e do ferro, as pacíficas civilizações matrifocais da Deusa entraram em declínio. Invasões sucessivas de tribos guerreiras e nômades trouxeram uma onda de violência e destruição. Uma nova civilização baseada em modelos de dominação e autoritarismo foi imposta, iniciando-se a perseguição da antiga religião da Deusa e de suas representantes – as mulheres. Os invasores trouxeram um panteão de deuses guerreiros, donos das tempestades, dos raios e das batalhas. O sexo da criadora foi mudado – a Mãe tornou-se Pai e a Deusa, transformada em consorte, filha, amante - depois finalmente ignorada e esquecida.
Seguiu-se a Idade da Razão e, com o surgimento do racionalismo e das correntes materialistas e dialéticas, a supremacia do espírito sobre a matéria passou a ser negada. Somente no século XIX o movimento romântico trouxe de volta valores femininos - no entanto, de uma forma idílica, idealizando somente as virtudes e a fragilidade da mulher. Infelizmente, o monoteísmo judaico-cristão, que proclamou um só criador – o Pai - e considerou a mulher a origem do pecado e de todos os males, suprimiu os símbolos do poder divino da Deusa, como sendo maléficos ou pecaminosos. Mesmo assim, as imagens, os atributos e nomes sagrados das tradições da Deusa (principalmente de Inanna, Cibele, Deméter e Isis) foram absorvidos e adaptados no culto de Maria. Com a extinção definitiva dos cultos da Deusa nos países cristianizados e a conseqüente perseguição e difamação dos valores sagrados femininos, somente fragmentos das antigas celebrações, tradições, práticas e conhecimentos velados permaneceram disfarçados nas crenças populares, nos costumes folclóricos, nos contos de fadas, nas terapias xamânicas.
No entanto, observa-se atualmente, no mundo todo, o ressurgimento dos valores e da busca do Sagrado Feminino, como uma necessidade de cura profunda da psique individual e coletiva fragmentada pela dicotomia da racionalidade. O movimento feminista encontrou nos arquétipos das Deusas modelos positivos de fortalecimento e auto-transfomação. A emergência da Deusa na consciência ocidental trouxe uma nova/antiga visão da Terra, favorecendo o surgimento da hipótese Gaia (da interdependência de todas as formas de vida no planeta ), das preocupações ecológicas, das terapias xamânicas, da renovação nas religiões fundamentalistas e tradicionais como o cristianismo e o judaísmo. Religiosos católicos como Matthew Fox estão aceitando uma nova visão de Deus como Mãe, a freira Meinrad Craighhead está pintando imagens de deusas vistas emsonhos e visões, as mulheres judias voltam a reverenciar Shekinah, a representação hebraica da divindade feminina.
Os movimentos neo-pagãos, como as várias vertentes da Wicca, as tradições xamânicas de várias origens, algumas Escolas de Mistérios e uma multiplicidade de seitas e organizações estão adotando a teologia dualista, reverenciando ambos os princípios - o Deus e a Deusa - e acrescentando uma fusão de antigas crenças folclóricas européias ou nativas, reminiscências dos antigos festivais agrários, arquétipos mitológicos e práticas mágicas e curativas, tradicionais ou recentes. Nesta amalgamação de crenças sobressaem-se o reconhecimento e a reverência à Deusa, com adaptações regionais ou pessoais.
Há também uma crescente divulgação da espiritualidade feminina na literatura, arte, música e terapia. O eco-feminismo ou o ativismo político e ecológico, o empenho para a transformação interior e a conseqüente necessidade da renovação individual e global são sinais evidentes e benéficos do retorno da Deusa. Sua volta não significa retomar as antigas práticas e crenças religiosas, mas revalidar o Sagrado Feminino, criar uma nova cosmologia centrada na Terra, curar as cisões individuais e coletivas, promover uma nova ética baseada em valores espirituais e a reverência pela vida, buscar soluções pacíficas para a nossa sobrevivência e convivência, realizando assim, em nós e ao nosso redor, o Casamento Sagrado: da luz e da sombra, do espírito com a matéria, do animus com a anima, do Céu com a Terra.


Texto de Mirella Faur
 A deusa tecelã
Dos tempos que se perdem nas brumas, emerge majestosa a Grande Deusa Tecelã, aquela que, assim como faz a aranha até os dias de hoje, produziu do seu ventre os fios que formam a estrutura do universo. Estes mesmos fios que, ao se organizarem e reorganizarem continuamente, formam todos os diferentes elementos que compõem o mundo múltiplo, variado e diverso. Contendo tudo que foi, é e será, sua teia-vida estabelece as relações mútuas que vinculam esta grande variedade de seres no que a Ciência denomina de Campo Unificado de Energia ou Consciência.

No Egito Antigo, esta fiandeira cósmica era conhecida como a Deusa Neit. Dela emanam os fios essenciais que se interconectam na teia multidimensional, a estrutura básica de tudo que existe no universo. Dela também emana o primeiro movimento da criação, que se desdobra no trançar dos fios em infinitas possibilidades, que vão tecendo a realidade cósmica.

A Grande Deusa fia e tece toda a existência do caos bruto em realidade. Por isto, o fiar e o tecer são, desde os primórdios, atribuídos ao universo feminino. A magia que permite transmutar lã, seda, linho, algodão ou outro material vegetal em fio e com ele tecer panos para os mais variados usos, permitiu aos nossos ancestrais sobreviverem nas regiões mais frias e mais quentes do planeta. E esta magia era realizada pelas mãos das mulheres, sob a inspiração da deusa.

A mais conhecida tecelã é a deusa grega Atena, patrona de todas as artes e ofícios. Como todas as divindades, ela ilumina um amplo espectro da existência humana. Quando nos desvencilhamos do viés patriarcal, que enfatiza seus aspectos relacionados com o mundo masculino, percebemos que a maior entre as dádivas de Atena é imbuir com alma todos os trabalhos civilizatórios. Em assim fazendo, ela propicia a nós mulheres uma compreensão do valor e da importância de nossos poderes criativos. Ela nos mostra como tecer o sagrado em todos os atos cotidianos.

De sua origem anterior à vinda dos helenos para a Grécia, ela incorpora a sabedoria aquática e intuitiva de sua mãe Métis, uma oceânide, finamente sintonizada com os sutis processos de transformação que ocorrem continuamente na vida das pessoas, receptiva aos sentimentos pessoais, poéticos e sensíveis, próprio do princípio feminino. Ao mesmo tempo, representa o saber abstrato, manifestado através da produção artesanal, da arte da guerra, do poder institucionalizado, introduzido pelo princípio masculino. Em sua virgindade, ela integra espírito e alma, apontando o caminho para nos relacionarmos a partir de nossa integridade, de nossa autonomia.

Na tradição hindu, a deusa tecelã recebe o nome de Maya. Posicionada no centro de sua teia, ela não apenas tece a ordem cósmica, mas a reproduz em nosso mundo dos sentidos de forma tão perfeita, que não distinguimos entre a realidade em si e nossa versão dela. Assim como Maya se posiciona no centro da teia cósmica, cada ser humano percebe a si mesmo como o centro da própria existência. Da perspectiva psicológica, cada qual fia e tece sua própria realidade, a partir de um centro que denominamos de Eu.

Mas, ao tecermos nosso próprio tecido, nossa própria individualidade, não devemos perder a noção de que estamos conectados com todos os demais seres, por meio do fio de que é feita a grande teia. Como emanações que somos da Grande Deusa Tecelã, todos nós somos constituídos da mesma substância e compartilhamos a essência divina dos fios de Neit.

Tecer significa ativar e misturar nossas experiências de vida, para produzir um padrão individual, único e inimitável, aquilo que distingue cada qual dentre todos os seres no cosmos. Quando permitimos que uma nova experiência se integra no nosso viver, quando não tememos as transformações que isto inevitavelmente traz consigo, estamos tornando nosso padrão pessoal mais complexo e, com isto, enriquecendo o padrão coletivo. Tornamo-nos co-criadores da grande teia.

Como co-criadoras, participamos na criação do nosso próprio destino individual e coletivo. Pois o destino também é atributo de deusas tecelãs. Na mitologia nórdica, tão rica em histórias que envolvem o fiar e o tecer, o destino é decretado pelas Nornas, que compunham a teia do destino com uma miríade de fios e linhas. A mais velha das três, que também parece ter sido a mais antiga, está sempre sentada ao lado de uma fonte, a Fonte de Urd, onde o próprio Odin foi buscar conselho e conhecimento.

Fiar está arrolado entre os ofícios mais antigos conhecidos, cujas origens se perdem na pré-história. Para as comunidades Kajaba da Colômbia, a condição para ser mulher é saber fiar e tecer, um ofício cujos segredos são transmitidos às jovens moças, quando de sua reclusão na tenda vermelha. Seu mito da criação diz que, quando a Mãe Universal fincou seu imenso fuso verticalmente na terra recém criada, dele se desprendeu uma fibra de fio de algodão, com a qual traçou um círculo, declarando que esta seria a terra de seus filhos. Como uma atividade desempenhada pelas mulheres em suas casas, desde a antiguidade até a revolução industrial, o processo de fiar e tecer tornou-se uma simbologia poderosa para a criação de nova ordem a partir do caos, definindo o destino humano.

E a força desta simbologia também manifesta sua influência na elaboração da moderna Teoria das Cordas, que se utiliza da imagética da fiação, descrevendo o tecido microscópico de que é feito nosso universo multidimensional como ricamente urdido a partir de cordas que vibram sem cessar e, com sua vibração, introduzem o ritmo da vida no cosmos.
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Por Monika Koss

terça-feira, 9 de agosto de 2011

 Bruxa


Adorei este texto e me endentifiquei muito!!!
P/mim bruxas são assim! 

Para a pergunta "como identificar uma bruxa?", eis minha opinião:
Você a identifica pelo "modus vivendi", ou seja pela maneira como ela encara a si mesma, ao mundo e os outros.
Somos diferentes nisso, não quanto a rótulos desgastados de "bruxa boazinha" versus "bruxa do mal", isso não existe!
Existe a magia em todas as suas manifestações e extensões, e sim, a forma como você a manipula e a executa, mas todas temos dentro de nós a mistura dessas duas forças antagônicas, e que se completam: o bem e o mal. Cabe a você saber o que fazer com elas e o que você quer ser.
Uma bruxa possui a acuidade que outros não têm, em perceber a seu redor sentimentos, e energias, que outras pessoas ignoram, encara a vida com olhos mais tranqüilos, e menos acelerados do que outros, vê beleza em grandes, e pequenos feitos, sente-se capaz de mudar seu rumo sem delegar suas desgraças, e culpas aos demais.
Uma bruxa é dona e senhora de si mesma, venera suas deidades porque assim o decidiu, e não porque é moda, e interessante.
Uma bruxa, sente-se despreocupada quanto a opiniões alhéias.
Agindo de acordo ao seu código de ética, sempre em consonância com o respeito que nutre por si mesma, e pela individualidade dos outros. Sendo assim, reflete em pensamentos, e ações aquilo que deseja como retorno em suas conexões, e meio.
Crê em coisas que outros não acreditam, entre tanto, aceita outras realidades, e não as entende como ameaças às suas.
Uma bruxa é sabedoura das Artes da Magia, de todas, isto quando é uma bruxa esperta...Sem permitir que lhe sejam colocados rôtulos, nem bandeiras.
Aberta às descobertas, aventura-se em pesquisas e leituras sem medidas, exatamente para ter consciência quanto aos outros "universos" que a cercam.
Uma bruxa se relaciona naturalmente com as energias in natura, sem medos ao 'escuro', ao disforme, ao que à primeira vista causa estranhamento, por entender que outros olhares, podem nós permitir saborear segundas impressões com mais prazer em aceitar o diverso.
Nós bruxas, alimentamos a sede de viver, de saber, de descobrir, e zingrar os sete mares, e outros nunca antes navegados...
Somos tantas coisas, menos seres massificados, produzidos em série, artificiais, plásticos, ocos.
Bruxas, aquelas que amadureceram seus ideais, e desejos, aquelas que permitiram-se conhecer suas verdadeiras formas, defendem seu modus vivendi, com garras e unhas, e execram a superficialidade com que muitas vezes, são entendidas e classificadas.

Isso é o que somos.


FONTE: Luciana Onofre

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Ancestralidade: força das mulheres negras

Ancestralidade: força das mulheres negras

Ancestralidade: força das mulheres negras
Oxum é o orixá que rege o amor e a fertilidade. Dona do ouro, da prata e dos mais ricos encantos femininos, essa iabá é bonita, vaidosa, às vezes ciumenta e possessiva. Mas seus poderes vão além de sua formosura, pois foi a ela que Olodumare (Deus Supremo) atribuiu a responsabilidade de preparar os humanos para receber os deuses, e assim os orixás puderam voltar à terra para, ao som de atabaques e xequerês reviver seus mitos por meio da música e da dança. Por tal razão, Oxum é considerada a Rainha do Candomblé.

Alguns afirmam que “as filhas de Iansã não fogem da briga”, e isso se justifica porque Iansã é uma orixá guerreira, é quem governa o vento, as tempestades e a sensualidade feminina. E é também a senhora do raio e soberana dos espíritos dos mortos, pois é somente ela quem os direciona para o outro mundo.

Muito cultuada e talvez o orixá mais conhecido no Brasil é Iemanjá, senhora das águas salgadas, dos mares e oceanos, mães dos deuses, dos homens e dos peixes. Ela é também a dona de todas as cabeças, pois rege o equilíbrio emocional e a loucura.

Assim, são dessas mulheres míticas tão marcantes na tradição afro-brasileira que emergem os símbolos que inspiraram e inspiram a resistência e a luta de inúmeras mulheres negras, pois para além dos estereótipos, essas deusas africanas alargam e complexificam nossa compreensão do feminino, são mães dedicadas e também amantes apaixonadas

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

EU SOU PAGÃ HOJE NO BRASIL


Por Mavesper Cy Ceridwen

Eu sou pagã hoje no Brasil e vivo a religião da Deusa em amor e sinceridade, caminhando e aprendendo a fluir com os ritmos da natureza. Eu procuro viver em beleza, para que a beleza me envolva. Conheço a Deusa e a cada dia mais a compreendo um pouco, sabendo que jamais acabarei essa tarefa, o que enche minha vida de propósito e riqueza. Encontro a Deusa na face de cada pessoa que cruza meu caminho, mesmo as que me são desagradáveis.
Eu sou pagã hoje no Brasil e meu corpo dói com cada notícia de água envenenada, natureza esgotada, animais maltratados, extermínios e queimadas insanas... Conheço a Lua no meu próprio sangue, mesmo quando as nuvens a encobrem no céu. Vivo os ciclos da natureza e celebro as datas ancestrais, danço, canto e comemoro os grandes e pequenos Sabbats. A cada fase da Lua saúdo-a em grupo ou sozinha, mas nunca deixo de sorrir para cada um de seus mistérios.
Eu sou pagã hoje no Brasil e uso a magia para melhorar minha vida e das pessoas que me procuram, aprendendo com meus erros e renovando minha capacidade de reconhecer o universo como um milagre de magia e perfeito equilíbrio. Conheço os diversos mundos e busco trazer deles o que melhor condiz com minha realidade e as necessidades que surgem nos giros da Roda da Vida, aprendendo a lição dos ciclos.
Eu sou pagã hoje no Brasil e luto para me conhecer cada vez mais, vendo minha sombra e acolhendo o que posso integrar, conhecendo a Deusa Negra em minha vida e aprendendo a amá-la. Como pagã também vejo a sombra coletiva de nossa nação e não fecho os olhos quanto ao crime, a violência, a corrupção, a posse da terra, a miséria e a fome. Como pagã sou revolucionária, não conformista, universalista e ardorosa defensora das liberdades, mantendo a unidade da consciência ecológica a sabendo a importância de defender o direito de quem pensa diferente de nós.

Eu sou pagã hoje no Brasil e vejo com inquietação nossa religião se tornar mais conhecida e visada. Combato a ignorância esclarecendo todos os que se interessam pela bruxaria, mostrando que somos pessoas normais, com vidas normais e não espetáculos de salão. Sofro com a incompreensão, muito mais pelos outros do que por mim. Admiro quem se mantém fiel ao Caminho mesmo diante de dificuldades familiares e sociais e faço valer nossas leis de não discriminação religiosa.
Eu sou pagã hoje no Brasil e percebo a importância de conscientizar as pessoas de sua própria auto-imposta escravidão. Vejo a importância de agir e viver de acordo com meu poder pessoal e abençôo cada chance de transformação que a vida me traz. Como bruxa, tenho orgulho de ser mulher, de falar a outras mulheres sobre nossa irmandade básica e de ver os homens tocados pela Deusa como os companheiros ideais e a única esperança de uma sociedade feita de parceria e soma de capacidades.
Eu sou pagã hoje no Brasil e celebro a Roda do Ano criando junto com os deuses e com as pessoas que me cercam a dança ancestral, refazendo os caminhos já trilhados por nossos antepassados de uma maneira nova e em consonância com nosso tempo. Levo minhas crianças às celebrações lunares e solares, desejando que elas cresçam cada vez mais em consciência, auto-determinação, independência e liberdade. Que elas possam fazer a magia do amor modificar os mundos.
Eu sou pagã hoje no Brasil, vivendo em cidades grandes sou uma bruxa urbana que descobre a natureza nos locais mais inusitados. Danço minhas danças de poder nas danceterias, ou vou para parques. Sempre que posso busco a mata, o cerrado e a praia. Compro meus instrumentos em shoppings ou os faço com minhas mãos. Reabasteço-me na natureza e dou poder a tudo que me cerca, vivificando com minha magia tudo o que faço, de escrever um texto a preparar um almoço, da roupa que uso ao modo como me movimento. Descubro a riqueza da minha terra, da herança indígena às contribuições européias e africanas, e as honro em meus rituais sem esquecer que a Deusa não tem nacionalidade, e fala todas as línguas.
Eu sou pagã hoje no Brasil e conheço muitos pagãos, cada vez mais gente que acorda do pesadelo das visões retilíneas do universo e passa a sonhar o doce sonho da Terra. Nessas pessoas descubro meus irmãos de alma, meus companheiros de caminho, meus parceiros na dança espiral. Me orgulho de viver em um tempo em que a Deusa sorri e podemos retribuir seu sorriso em alegria e liberdade. Nunca mais os tempos da fogueira!


Eu sou pagã hoje no Brasil e vejo mais e mais gente ouvindo o Chamado da Senhora. Eu sou pagã hoje no Brasil e a cada dia vejo aumentar a responsabilidade de orientação e auxílio que devemos dar aos mais novos na Arte, como expressão de nosso compromisso com os Antigos.
Eu sou pagã hoje no Brasil e sei que temos um dos maiores movimentos wiccanianos do mundo na atualidade, e busco me integrar às iniciativas e eventos que façam uma ponte entre nós e nossos irmãos de outros países, sabendo que isso fortalece nossos elos e o paganismo como um todo.
Eu sou pagã hoje no Brasil e sei como é difícil explicar a alguém que não o seja o que significa essa sensação única de ser integrado à Mãe e ser único e múltiplo, unido, completo e sagrado.
Eu sou pagã hoje no Brasil e a respiração de cada ser vivo deste planeta, e a pulsação de cada estrela além, bate no compasso do meu coração, pois eu sei que Dela é toda vida e todo amor.


A vida é uma espiral

A vida é uma espiral
"A vida é como uma espiral e não como uma linha reta. Passado e futuro se encontram em um infinito presente".

A espiral é a essência do mistério da vida. Assim como se centra, ela também pára, se encontra, se retorce e, então, desce e sobe novamente em graciosas curvas. O tempo se retorce em torno de si mesmo, trazendo os ecos e vibrações enquanto que os caminhos vivos da espiral passam próximos um do outro. A vida corre por estradas sinuosas, os seres se encontram em determinados pontos de suas caminhadas, se entrelaçam, se afastam, partem, retornam às origens. O ponto de partida também é o ponto de chegada trazendo-nos a questão do retornar sempre, reencontrar-se e se renovar.

As espirais também circulam dentro de nós, a energia circula em espiral, é onde a matéria e o espírito mais perfeitamente se encontram, e o tempo, por ele mesmo, não existe. Os nativos lembram as diversidades da vida e dos caminhos, e não compreendem o mundo de forma linear, o seguir em frente em uma única direção como se a vida fosse uma linha reta traçada entre um ponto de início e um de término.
O destino é sempre ir além. O grande desafio de todo ser, por natureza um guerreiro trilhando as estradas das espirais da vida, é essa busca, é o retorno, é a partida, é caminhar em círculos/ciclos assim como caminha a natureza, pois somos parte dela. É fazer girar a roda do tempo, não nos prendendo em nenhum ponto em específico porque, assim, podemos vislumbrar os mais diversos pontos que compõem a espiral.

Sobre as formas espiraladas e circulares, Alce Negro, dos Oglala Sioux coloca o seguinte: "Tudo que o poder do mundo faz é feito em círculo. O ceú é redondo e tenho ouvido que a terra é redonda como uma bola, e assim também o são as estrelas. O vento, em sua força máxima, rodopia. Os pássaros fazem seus ninhos em círculos, pois a religião deles é a mesma que a nossa. O sol nasce e desaparece em círculo em sua sucessão, e sempre retornam outra vez ao ponto de partida. A vida do homem é um círculo, que vai da infância até a infância, e assim acontece com tudo que é movido pela força. Nossas tendas eram redondas como os ninhos das aves, e sempre eram dispostas em círculo, o aro da nação, o ninho de muitos ninhos, onde o Grande Espírito quis que nós chocássemos nossos filhos".

Para os antigos celtas essa é toda a essência do mistério da vida. O circular, o espiralado. O tempo, uma das triplas linhas tão importantes para o imaginário celta, se retorce em torno de si mesmo. Os astecas achavam que certas flores que tinham em seu centro espirais, eram a alegria do mundo, mostrando o ciclo do sol, quando nasce e se põe, as estações, solstícios, ciclos assim como a vida dos homens. Os orientais falam da kundalini, do fluxo de uma energia em espiral, dos redemoinhos energéticos que perambulam nossos corpos.

Como vórtex de energia, as espirais encontradas em vestígios antigos expressavam um entendimento do cosmos, da energia vibrante, da vida, ou o seu contrário. Tradicionalmente, os ancestrais compreenderam que espirais no sentido horário representavam o nascer, o sol, a vida, o mundo de cima, a transformação pelas experiências exteriores. Para o sentido anti-horário, representavam a lua, a morte, o outro mundo, o mundo de baixo, o mundo dos sonhos e alucinações, intuição, as experiências transformadoras vindas do nosso interior.
Para os hindus, o que no nosso mundo terrestre era no sentido anti-horário, para a esquerda, no mundo de baixo, no outro mundo, correspondia ao sentido horário. Hoje sabe-se que esses simbolismos expressam as funções cerebrais, o lado esquerdo do cérebro regula o lado direito de nosso corpo, o lado direito regula o lado esquerdo do corpo. Nem bom, nem mal, apenas diversidades que compõe o universo, uma perfeita simbiose, uma perfeita composição de energias.

Se vermos vários locais sagrados dos antepassados, desde o paleolítico, em qualquer parte do mundo, notaremos sempre a compreensão circular e espiralada. A espiral é a energia vital, é a energia em movimento, é a própria jornada.

http://www.saindodamatrix.com.br/archives/espirais.htm


ESPIRAIS E LABIRINTOS
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ESPIRAIS E LABIRINTOS

Fonte: por Helena Gerenstadt AS CHAVES DO SENTIDO DA CRIAÇÃO E A EXISTÊNCIA

Como se fosse a assinatura de uma inteligência suprema, estas formas estão inscritas em todos os níveis do espaço e do tempo. Encontramos essas formas nas galáxias, no sistema solar, no código universal, na religião e na arte de todas as culturas humanas. Mas qual é o seu significado mais profundo? Qual é o sentido desta mensagem, que nos transmitem? Qual relação com a nossa própria existência como filhos da mesma estrela que iluminam nosso destino?

A Terra nasceu a partir do movimento em espiral de uma nuvem de gás e pó cósmico. Desde então, as espirais formam parte de nosso entorno cotidiano. Podemos contemplar-las em todas as escalas possíveis, tanto no espaço como no tempo. A própria natureza elegeu essa forma para seu crescimento e desenvolvimento. A forma helicoidal está presente no mais profundo dos seres vivos, como na dupla hélice do DNA (ácido desoxirribonucléico) que codifica nossa herança. O corpo humano também contém a tripla hélice do cordão umbilical – formado por duas artérias e uma veia. Temos rodamoinhos no cabelo. As marcas de nossos dedos, as glândulas sudoríparas, e os folículos pilosos, assim como a estrutura torsionada de alguns ossos e o caracol de nosso ouvido interno – uma das espirais mais perfeitas – também evocam a mesma forma, que assim mesmo observamos nas ondas que culminam enroscando-se, nas conchas dos caracóis, o movimento dos ciclones ou tornados e as curvas espirais divergentes ou centrífugas das galáxias. Todos estes casos constituem exemplos de como a natureza repete uma e outra vez este movimento que nos acompanha desde que nasceu o sistema solar. Esta espiral integra outra muito maior; o imenso rodamoinho da Via Láctea, que gira vertiginosamente no espaço repetindo o mesmo movimento.

Talvez por isso, essa forma se converteu desde tempos remotos em um dos símbolos da Humanidade e a encontramos em todas as civilizações como um leitmotiv onipresente.
Nas culturas precolombinas, o Deus da Chuva, Tlaloc, era representado saindo da boca de um caracol gigante, e Quetzalcóatl estava estreitamente relacionado com caracóis marinhos. Para os maias, o solstício de inverno era o momento zero em sua cosmologia e a espiral simbolizava essa origem. A Vênus de Milo foi representada girando sobre si mesma em movimento ascendente, como sua parte superior desnuda e a inferior coberta, como se estivesse abandonando a roupagem da matéria em sua ascensão em espiral. O caduceu hermético, com o duplo enroscamento das serpentes, reproduz a mesma forma que o duplo movimento dos Nadjis, um dos canais situados em ambos os lados da coluna vertebral, que em certas práticas yoguis colocam em movimento para o despertar da energia Kundalini, para que esta ascenda até o chacra (vórtice energético) situado na cabeça. Todas essas configurações serpentinas reiteram idêntico leitmotiv.

O antiguíssimo símbolo do Yin e Yang é também uma forma de espiral que carece de princípio e fim. Todo se expande e multiplica, dando origem a dualidade, para regressar de nova a divindade, uma vez finalizado o processo. No Hinduismo, a dupla espiral representa a evolução, partindo de seu centro, e a involução, regressando ao mesmo. É o Kalpa e o Pralaya, nascimento e morte.
Para numerosos povos africanos, está forma simboliza a dinâmica da vida e a expansão, dos seres dentro do manifestado. Entre os Dogón, representa a semente de Amm, quer dizer, o verbo ou a palavra de Deus. Este conceito se expressa mediante uma espiral de cobre vermelho que dá três voltas em torno de uma vasilha de barro. Entre os germanos, o mesmo sinal rodeava o olho de um cavalo unido a um carro solar, que representavam a fonte de toda luz.

Uma chave arquetípica

Não cabe dúvida que estamos diante de um arquétipo de nossa psique mais profunda: o inconsciente coletivo de C.G. Jung. Podemos imaginar o descenso desta forma espiro - helicoidal desde o espaço, representando assim o recorrido que efetua a energia universal para que, atravessando distintos planos, níveis e estados do Cosmos, em seu descenso se converta em energia cada vez mais densa, até alcançar o estado de matéria, tal e como a conhecemos. Caso o percurso seja efetuado em sentido inverso, quer dizer, ascendente, representará então a evolução.
Como as espirais, também os labirintos são patrimônios exclusivos de uma ou outra filosofia, religião ou cultura. Desde tempos antigos, surgiram os petróglifos esparzidos por todo mundo com este motivo. Com o tempo, essas formas geométricas foram se incorporando ao habitat do ser humano, aparecendo em portas e janelas, convertendo-se em motivos ornamentais recorrentes das cerâmicas, e em seguida fizeram parte da arquitetura, nos palácios, ermitãs, igrejas e catedrais.
Nem sempre estão relacionadas com alusões iniciáticas. Em varias ocasiões foram escolhidos simplesmente como elementos decorativos para embelezar um local, um muro ou uma coluna. Mas também neste caso estamos diante de uma expressão formal que impregna o psiquismo humano mais universal.
Quando as espirais e os labirintos possuem um significado esotérico, geralmente aparecem junto com outros elementos indicadores de que nos encontramos diante de um lugar transcendente e diante de símbolos que nos desvelarão seu conteúdo, ajudando-nos a prosseguir a nossa experiência de aquisição de novos conhecimentos.
Essas espirais, e suas múltiplas variantes que podem observar-se através da grandeza do mundo, têm sido também utilizadas como esquema do labirinto, símbolo que nos permitirá abrir outras portas e alcançar outros horizontes.
O Labirinto de Abydos, no Egito, era conhecido como “o caracol”. De forma circular, em seus caminhos se celebravam as cerimônias iniciaticas dos antigos Mistérios, igualmente que sucedia em Newgrange, Irlanda, em cuja entrada se erguia uma pedra com o símbolo da espiral.
Quando se trata do mundo apaixonante dos labirintos somos obrigados a citar Teseu e o Minotauro. Quando o príncipe Teseu chega a Creta e se enamora de Ariadna, filha do Rei Minos, consegue dela um novilho para poder penetrar no Labirinto. Na realidade, trata-se de um osso com o fio, que irá desenvolvendo à medida que se penetre em seu interior. Uma vez morto o Minotauro, e quanto Teseu recolhe o fio, enrolando-o de novo, o faz de forma perfeitamente circular.

Texto revisado